domingo, 15 de janeiro de 2012

UM SANTO PERDIDO



Era um santo que deixou o altar,
Cansado de ter percorrido a fé abalada
Deu-se ao nada e perdeu tudo.
Mudo, pouco falava, sendo que palavra
Não lhe faltava, mas estampou-se no absurdo.
Escolheu arrependimento, ungüentos, amargura
Nessa desmedida ventura de opilar a si
Sorveu seu próprio veneno.
Já não lhe importavam os disfarces
As noites varridas para debaixo do capacho
A pouca lucidez lhe despiu a mente
E dizimou o que lhe restava.
Hoje vaga, procura seu espaço
É como um desses vassalos que já foi
Senhor de feudo e hoje, capenga, persegue
Uma outra religião que lhe diga o que fazer.
Um rol de dogmas, de penitências
Porque se santo de casa não faz milagre
Esse ai está longe de dizer amém.
E de fazer qualquer bem também.

A MONTANHA



Penso tanto em ti que é seco o pranto que choro
Como a vida que laboro fugidia de mim.
E essa estrada sem fim de estrelas gastas e de
Pouco brilho é o trilho de um imaginário trem
Enquanto por inteiro você não vem.

Desfaço a mala, de volta em casa
Buscando um destino, talvez o sul
Talvez o céu, em alguma montanha,
Pois quando Maomé não vem,
E nem a montanha caminha
A solidão se avizinha na noite que me tem.

E fosse uma noite um curto espaço,
Mas noites são abraços que não quero
São monstros e me oblitero
Enquanto segue a vida e em mais um
Triste e infinito dia ainda te espero.

E talvez quando você se dê conta
Que a vida passou
A montanha terá finalmente partido
Para algum novo destino
Em busca do verdadeiro amor!

INEXORÁVEL VONTADE DO SER



Há que se querer amor.
Amor sublime amor nada menos.
Amor sem parenteses, paredes
Sem mundos que te levem
Sem solidões que te abreviem.
Nem abandonos que me congelem.

E quando a paixão te bater à porta
Breve, responda do amor que tens
Da luz que te expõe, rasgando
Que o sonho de amar é tudo, ou não,
Pois um beijo é um beijo
E um desejo a soma de todos os beijos.

E mudo ao mundo brade
A razão de que te invade, ou a falta dela...
Esse punhal que te tornou amante, embora
Vás embora em sede de se encontrar
Sob o risco de me perder.

É que a alma não se curva à distância
Nem a neblina turva o amor
Nem eu me liberto da sina
De ainda te pertencer.


É na leveza que me liberto de mim mesma.

POEMINHA



A vida é assim uma roda
Gira a ciranda,
Gira o dia, gira o verso
Na poesia,
O amor é ciranda
Que gira -sem parar!
Mas quando toma encanto...
O amor, toma o universo
Que gira no beijo...
Do enamorar...
Vamos cirandar?

(DES)GOSTO



Era um rosto como outro qualquer
Que falava a uma mulher dos seus gostos.
Era depois do mês de agosto e o cachorro
Ainda louco, encontrou-se indisposto
Com um fim proposto- dar-se ao caos.

Há ciclos em todos os cantos
Desencantos, horas imprestáveis que ocupam
As areias do tempo entre o agora e o porvir.

Toma um gole do que sinto
Um poço desse absinto
Essa sensação de que é tarde.
Se gostei ou se quis
Se fui feliz ou amei
Sei o que sei e é muito.
No passado foste o vinho do meu gosto.
Hoje és vinagre que cuspo em desgosto.

O CORDEIRO



Matastes o Deus que havia em ti
Quando supuseste a ira e o destempero em mim.
Houve dias de luz entre nós, taças de cristal,
Maças e pêras.
Mas tua voz que somente ouve a ti,
E que interpreta as escrituras como vítima da vida
Tornou-te ímpio.
Regula teu ser na beleza de dias que te guardam
Que o teu Deus é meu e só a ele escuto.
A mim guarda doçura, esplendor e troca
A amargura que te dilacera por laços de amizade.
Tempera tua palavra no vinagre bento
Nos campos de alecrim, que a alegria te alcançará.
Não é o sangue do cordeiro que purifica,
Nem o sacrifício do inocente.
É a resolução interna de que Deus em ti
Se faz presente.
Guarda as armas.
Guarda a perfídia
Liberta-te do ódio,
Traz a terra a mensagem do santo espírito.
Segura a paz no teu ombro
E perfuma teus passos na plenitude.
Foi a luz de um olhar que amei.
E que para sempre levarei comigo.
Deixa, ao menos, eu pensar em devaneio
Que em algum meio te amar vale essa pena
Que trago no seio de menina pequena.

A VIDA - DE TARDINHA



Chamei a vida para um café, em casa,
Lá fora o vento brincava com as árvores
Enquanto o forno assava um bolo de milho cremoso.
Um gato no meio da sala, sentado, naquela posição
De durmo ou não durmo-eis a questão.
A vida chega, se assenta, conta um conto, toma
Um gole do café enquanto proseia as coisas
Simples, a beleza das flores, a inocência que ainda guarda.
No rádio aquela canção que aquece como o sol pós chuva
Dando cor ao agora, uma satisfação por dentro e por fora.
No ar o cheiro de bolo, na mente a saudade latente
Passei outro café pra essa vida linda como ela é
E que fala de fé entre uma pedaço e outro do bolo.
Depois ela se espreguiça no sofá...em paz...com o amor.
Duas crianças dormem na sala: o gato e a vida.
Os observo e penso tomara que a vida continue assim,
De bem consigo, passando a tarde comigo,
Sem pensar que vive sozinha,
Sorvendo o prazer de um café com bolo
No sabor de um carinho de tardinha...

SUAVE VENENO



Enclausurei-me por tempos, dias perdidos
Horas imprestáveis jogadas ao vento.
Catapultei-me acordada, iludida,
Qual fosse um doce lamento.
E sabia que tinha culpa, por tê-lo desejado
Sabia sem desculpa, mas o coração ingrato
Agia sem consulta prévia, sem licitar.
O veio da vida virou seu veneno
A vida no veio num lábio pequeno
Um lábio de fel se escreveu no papel
E o próprio céu chorou, a cura,
Caíram cristais de mel em doçura
Recobrindo-me a pele, as asas
Redesenhando-me o caminho de casa
Liberando-me daquela angústia
Sorvendo meu livro de mágoas.
Refuguei por dentro o mau amor
Que desmerecia aquela flor.
Do futuro ainda não sei -acordei agora-
Mas delineio um sonho sereno
De ser livre, inteira, plena
A fazer que o viver valha a pena
E ser imune àquele suave veneno.

ILUMINA-TE



Pugnastes a salvação dos dias, dos olhos.
E fingistes que já não mais me vias.
Em vias escuras de suposições abstratas
Das tênues nuances em que o nada tudo podia
Tua pele ardia da paixão que ainda te queimava.
Respaldei-me em Deuses, em anjos, em doses de morfina
Rogando por toda sublimação que outrora fora pretendida
Mergulhei em profanas lacunas de vento
Para que os fantasmas te dissessem
Acalma teu ser, é tempo de apaziguamento,
Mas a mensagem que entendestes fora outra e
Enclausurastes teu passo em teu próprio cárcere,
Pronto para atirar o punhal em minha alva face
E lançar sangue em terra santa.
Ficastes acuado, quando o que eu te dizia
Era que era eu quem tinha medo.
Segue em paz eu não sou bélica rosa.
Já estou longe em outras terras,
Em outros ventos de prosa
Onde sinto a brisa qual um novo pulso de sentir
A do amor possível.
A do amor tangível.
Assim, livre da loucura
Cravejo as estrelas de brilhantes
Para que iluminem o meu caminho.
Rogo ainda aos monges, que ouvem a minha confissão
Para que a mesma felicidade que me abraça
Redima-te da nossa imperfeição.
Encurtei o dia e fui para uma sombra fresca
De água cristalina.
Daqui a muitas luas, quando a vida tiver passado,
E minha alma madura de ouvir o canto dos pássaros,
Já terei escrito meus encantamentos.
De ti não saberei o que houve, se recuperastes a chama da vida,
Se tua pena foi branda, se cicatrizou a ferida,
E talvez me chegue algum mensageiro,
Dizendo-me que o perdão tornou-te nobre e relatando tua bela prole.
E, quem sabe, após minha passagem, sem drama, sem dó
Eu sopre ao teu ouvido, retornando ao pó
Que quando a luz se apagou
Eu não estava mais só.

(SOBRE) NATURAL




Uma sala convidou-me
Em velas e belas taças.
Há um cheiro novo no ar
Do velho amor que voltou
Do novo amor que brotou
Nas lacunas da distância.

De minha parte estou semeando
Um pouco daquela lenda,
Troquei o veneno por ervas
Dei-me a esses remédios da pureza
Em que a beleza interna e externa
Suplantam as minhas sombras.

Sinto que é a noite do tempo das almas
E que na paz retorno ao templo de mim.
Desprendendo-me do impulso,
E que talvez eu nunca seja essa coisa meiga
Clara, doce, perfeita.

É que sou uma ventania desde sempre,
O questionamento, as comportas
A ânsia de encontrar-me
Entre ervas, lendas, intensos relâmpagos
Em exorcismo próprio de ti.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O AMOR -ESSA VIAGEM



O amor diz que vai embora, quer outros ares
Mares outros sem desencontros
E que os escombros de nós sejam
Os novos alicerces para quando ele retornar.
Que precisa se encontrar, sozinho
Em algum canto do mundo da ilusão.
O Amor fez as malas e viajou
Foi carimbar o passaporte, no norte
Ver os gringos gastarem seus ditados populares
Consumirem e fazerem esse jogo
De cartas marcadas de tudo ou nada
Em que o meio termo parece coisa de pouca fé
Quando na verdade é a busca do equilíbrio
O que verdadeiramente importa.
O amor passou pela porta
Deixou um rastro de ciúmes,
Não sabendo se me encontrava na volta.
A vida é isso. As partidas, as incertezas.
A vida é isso. As chegadas, as surpresas.
Se o amor voltou!? Sim e trouxe mais que presentes.
Resgatou o velho amor do qual minha alma
Sentia uma infinita saudade...

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O AMOR-QUE ME AMA



Dei-me o direito da felicidade, de acordar tarde,
Em paz comigo. Comecei a tempo, que o hoje
Acabou de começar.
Há um sabor de café e mel, de camomila e
Torrões de açúcar.
No céu da boca -derretem - e adoçam a alma.
Dei-me o direito de amar, intensamente,
De amar a mim, o hoje, e até mesmo o amor,
Que amanheceu comigo, e me beijou as têmporas.
Acordo ainda lentamente, lânguida, sentindo
Que o aroma sublime da vida é a essência do carinho,
Consigo e do amor que me ama.
O amor está me ensinando a me perdoar,
A aceitar que a face imperfeita faz parte do todo
E que o todo me recebe em minha incompletude.
O amor fica me lembrando que preciso focar no hoje
Em me preocupar menos com o amanhã, que insiste,
Por vezes, a martelar, sendo que ainda sequer existe.
Dei-me ao direito de mesmo parecendo louca
Ouvir a música no silêncio de mim e a cantar pelos olhos.
Percebo que o que sinto por vezes não se explica
E que a vida na verdade é simples, é agente que complica...

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O AMOR -AUGUSTO


Trago além dos tragos e dos afagos
Uma inquietude, um final sem fim
Um elo perdido qual partido o tempo
Em arrebatamento de uma tarde em Roma.
Em fontes que jorram, plácidas
Em praças que tornaram-me ácidas
Descompus o espaço-degladiei-me
E sou o verde espaço de um lábio que ama.
O amor tem nome. Endereço.
Morou na rua da saudade, hoje partiu.
Mas segue robusto, augusto, quase lenda.
É essa querência que transforma o dia
É essa ardência que aflora em poesia
É essa transparência que a alma anseia
É a ceia, o transformar de um sol
Que arde, tarde em Roma
Nos braços de uma bela dona.

O AMOR - SE EU TIVESSE



Acolhi um coração partido, assim como um regato, uma chuva
Em chão de poeira, em roda de viola, noite afora, noite inteira.
O amor é assim, chega, sai, recompensa a infâmia
Como se fosse perfeito e me tivesse
Como se fosse direito e me aquietasse.
O amor tomou espaço demais, deixou-me fotos, bilhetes
Ramalhetes de flores e contou-me todas as suas dores.
Fiz música
Fiz letra lírica
Fiz letra lúdica.
Foi um crescendo tão distinto
Que partiu em desatino,
Quando o que eu só queria
Era um pouquinho de carinho.
É fim de tarde da minha janela
A vida essa coisa bela que temos em graça
Às vezes no meio da praça, num gole de cachaça
No pergaminho de sabedoria
Fica tilintando ao meu ouvido:
Viu eu te disse eu sabia
O amor quer e não quer
Toma e não toma
É uma incógnita.
E eu digo...é...um grande mistério,
Mas mesmo assim seria tão bom...
Se eu o tivesse.

A BAILARINA II


Passos tocaram chãos, e braços ergueram-me
Em compassos de traços com laços de cetim.
Fazia um pliê, rodopiei, levitei naquele palco
E qual doce pluma que ainda flutua em pleno ato,
Sentindo uma fome de toda suave melodia que
Volita, pintei a meiguice da vida.
Corri solta em meninice sentida.
Em meu gran finale, de um vale de sonhos
Ensaio nova peça- esvazio-me do passado
Passo tudo a limpo- dentro e fora realizo
Uma estréia de vida em que a alma precisa
Em leveza e suavidade deslizo
E o repensar de minha coreografia.
Dançar-me em deliciosa brisa,
Recriar-me na vida que me dança
Dar-me o gozo do agora
Qual fosse uma eterna criança.

O DOM DE AMAR



Dou-me ao amor sempre
Em qualquer latitude,
Em qualquer longitude,
Que longe ou perto
O amor tem essa amplitude
De me levar ao ar
De me levar ao mar
De me jogar ao chão
De me estender a mão.

Dou-me ao amor sem seta
Sem meta, sem direção
Ando solta, na contramão
Sem freio, sem meio.
Sem nada.

Amo mesmo, juro que amo
O passado, o agora
Por hora não sei se amo o futuro
Que em cima de um muro
Ainda não aconteceu.
Amo o que é meu
E o que não é
Que se o amor é de ninguém
Ele há de amar
A mim também.

O AMOR- DE NENHUMA




Enquanto segue imerso em distinta lamúria,
Na penúria da alma que fere por não atravessar de vez
Envolto em tua insensatez, no juízo que não te difere
Que não te defere a paz cortez não terás o amor de nenhuma.
Enquanto não crava a brasa e toma certeira asa
A casa te despe, e joga o próprio desespero como amigo certeiro
É no teu descaso consigo que morre teu caso comigo.
Meu amor é substituível, afável como tantas outras, de dignas damas
De tantas camas, mais brando, mais leve que as lágrimas que te bebem
Do que os rios de pesar que te carreguem.
Aquilo que infama que prometes como rijo, com bojo, é o próprio nojo
Quando na escuridão de desconexos versos teces preces sem fim,
Ceifas a mim da paz que preciso, do meu ilusório paraíso
Mas é o que tenho, sempre dito,
Mas é o que tenho, sempre tido.

Enquanto tua vida não toma rumo,
E a tua própria alma não te arruma
Seguirás trôpego, só, desterrado
Sem merecer o amor de nenhuma.

ADEUS



Preciso esquecer-te definitivamente,
Essa vida bandida que me socorre é migalha.
Canalha sina de sentir que palavras
Valem mais que atos.
Sou o pó de mim, o pós tu sem fim.
Preciso sufocar estes gritos, estes tempos
Que se arrastam em vagas lembranças
De algumas dezenas de poemas mortos.
 Daquilo que fomos.
Urgentemente quero esse mar de amar, do aqui agora
E não apenas o fogo em rogo em que me afogo.
Vou para longe do infinito de nós dois.
Vou sem prometer que percebo que cada letra
Que te lanço, que cada intenção de te apagar
Volta-se contra mim.

Apenas vou.
Enfim.

Doce Mês



Amei-te em um doce mês
No mês que chove, na vida que se locomove.
Fui um mês um tempo, uma medida.
Em que a vida me reformulou
E fui devastada.
Fui, sou, serei
O mesmo mês, o mesmo espaço.
Amei, só isso, os anjos viram
Mesmo sendo um resto de pecado
Pois sabia, que se amor houvesse
Jamais teria sido abençoado.
Deixei de amar.
Voltei a mim. Sem chuva.
A vida traz novos amores,
Velhos amores reformulados,
Mas a boca sente falta
É do sabor de pecado.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O POEMA E A POESIA



A vida que se expressa em arte é testemunha de um amor havido
Que se fez em delicadeza, na sutileza sonhada, no mais puro sentido
Singelos amantes - Poema e Poesia, produtos do soberano tudo
E do majestoso nada.
Consumaram-se em letras, em tantas tramas de pergaminhos,
Em dramas e descaminhos, em pétalas e densos espinhos,
Suplantando a vida imediatista, apaixonaram-se.
Qual a mais sublime conquista
Entregaram-se a um amor
À primeira vista.
Escreveram-se no íntimo, no ínfimo,
Em folhas, em rolhas de vinho,
Ao longo de um mesmo caminho.
Qual éter de um amor etílico.
Quis a vida dar-lhes campos, onde correram
E dar-lhes riachos de beijos onde se entregaram
E em sedas e papéis tatuaram-se em mel,
Que lhes escorria no imaginário
Do mais adocicado céu.
Mas o tempo que tudo transforma,
Levou-lhes a diferentes veios, qual água e vento.
O poema inclinou-se ao lamento
E a poesia, cansada daquela mágoa
Fez as malas e mudou-se com a rosa
Foi dar vida a uma nova forma de prosa.
Sei que sentem falta um do outro
Qual fossem um só corpo uma alma.
E recordam-se saudosos daquela viagem realizada
Ao longo da mesma sinuosa estrada,
Sabendo que tudo é transitório, passageiro
E que esse amor não é página virada.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Um Anjo Em Dia de Chuva

Toma minha mão e esquece
A tortura das letras que você procura, pois
Seus lamentos...sãos meus! Veja, nos meus olhos a paz e a fúria
Somos, por certo, semelhança e ambiguidade...

Apaga as letras, os excessos e faltas dos outros que ferem
Imprima uma nova perspectiva, eu vim em água viva, transparente,
Em céu de nuvens cinzas, em calor de alma
Pelas suas inquietações, sem pena, mas por sincronicidade.

Deixando universos paralelos, fluí a si, velando seu dia
Nos pulsares belos da divindade que já lhe pertence 
Somos dois corações singelos em vidas míticas...

Sou as asas do afago, sou seu anjo de luz!
Rompi espaço e tempo, o crepúsculo dos céus!
Despindo-me da divindade nesta forma de mulher.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

POEMA PARA MINHA FILHA



Fui tomar chá de clorofila. Amarelo.
Num castelo de caramelo concebi minha filha.
Linda! Chama-se Poesia.

Risonha, por vezes taciturna, corria pelos cômodos desde cedo.
Aos quatro anos caiu, cortou-se, sete pontos no braço direito.

Manhosa, birrenta, brincava com pés de pimenta
E se queimava. Ardia-lhe a boca aquelas malaguetas,
Que pensava serem balinhas de morango.

Desde cedo gosta de tango, agarrava-se a minha saia
E trêmula ensaiava longos passos ao som de  “por uma cabeza”
Não fosse em sua essência pura veia poética acho que seria bailarina.
Rodopia entre os cantos, em suave melodia.
Está amadurecendo, em fluidez e candura.

Talvez, quando eu já não mais exista, ela ainda esteja entre vocês
Eternizada em um livro de capa dura.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

DOCE VAMPIRA


Na noite ela é negra
De alma corrompida
Ela é ambigüidade em palavras
Bandida...

Na noite ela suga
Cada sopro de vida
Destrói a si mesma
Sem medida.

Na noite ela olha
As vitimas
Face a face!

Pois durante o dia
A poesia
É seu disfarce!

domingo, 27 de novembro de 2011

A DIALÉTICA DO AMOR


Preciso de outra alma, incolor, indolor.
Que não se perca em aflições
Em tantos questionamentos.
Já nem sei se preciso de respostas.
Pois os valores deste mundo não me servem.
Vida hipócrita que me cerca,
Onde o ter suplanta o ser
Desconheço o sono pacífico,
O sono dos justos,
O plácido repouso do espírito.
Há tanto em mim de pesadelo e comiseração
Que esqueço minhas metas.
A ambiguidade sentou-se à minha porta,
Exigindo-me coerência.

Necessito de uma alma que não seja tão vulnerável
Ao desprezo, desleixo,
Ao mundano modus operandi social.
Especialmente ao desprendimento emocional.
Como falar de amor quando as chuvas são de canivetes?
Meu oásis é meu próprio calabouço. A água é sangue.
Gostaria que esse sentir me fosse frio, como o caçador
Que elege, mata e descarta.
E não esta vil condição que me permeia,
Que atravessa a poesia, em golpe desonesto,
Sequestrando-me vida, fazendo-me inconstante.
Tornando o poema um caso natimorto tão denso quanto eu.
Expurguei o amor de mim tantas vezes em ato de
Negação, de preservação do próprio espírito.
Repiquei cada folha, cada confissão, cada grito, os desejos.
Mas em cada forma de reconstrução
O amor driblou as barreiras e refez-se.

Quem sabe fosse minh' alma insensível,
Insensata, inescrupulosa
E assim capaz de dominar a carne,
Escaldando em salmora as minhas feridas purulentas.
Talvez, nem deste modo fossem repelidos os demônios,
Muito menos se obtivesse redenção.
Há sangue do mar de amar
Em meus vermelhos cabelos.
Há um vazio maior que qualquer buraco negro.
Estou em fadiga, em fuga,
Engasgada com a vida.
E assim, sem mais saber a qual deus clamar
Tombei diante do altar como ao mundo vim!
Em aço blindei o corpo absorto
E certa de minha própria morte me entreguei a ti!

Morri em êxtase de infinitos atos carnais,
De estar a flor corpórea da pele cativada por tuas juras!
Fui em oferenda e em saga de cicatrizar uma a uma
As minhas tenras fissuras!
Muito além do córtex e das vontades abismais!
Amei mesmo sem saber se fui amada, íntegra.
Deitada aos pés do sagrado de mim
Permaneci em essência pura
Pois é a busca do amor que me liberta
De toda e qualquer loucura...

sábado, 26 de novembro de 2011

TEMPO DO VERBO



Tempo de se conjugar o verbo amar é tempo bélico,
Tempo térmico.
Do amor que te atravessas sabe Deus,
Tua estrada e as palavras.
Nas imperfeições e exuberâncias
O amor se faz de inconstância,
Conflito tempestuoso de si
Regra-se no sentir.
Alimenta-se de saudade
Reveste-se de vontade.
Quando o teu coração dilacerado clama o amor que em fenômeno
Tornas-te atemporal.
O infinito interno da alma que ama
Não se consola em nada, em qualquer antídoto
É veneno de espuma, a tempestade é o ser.
Assim, restas, além da paixão,
Arrebatado em temor de amor perecer.
É toda a vida ao redor da palavra de quatro letras.
Que teima em persistir.
É toda a vida ao redor da palavra de quatro letras.
Que teima a te perseguir.
É toda a vida ao redor da palavra de quatro letras.
Pouco importa a conjugação.
É toda a vida ao redor da palavra de quatro letras.
Que entregastes o teu coração.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O FETICHE






Eu sou um fetiche de letras.
São o ápice do que desejo, do que vejo.
As beijo, as atravesso em verso.
Apaixonada por essas vontades de me escrever no mundo
(são elas o brilho desses olhos).

Eu tenho fetiche por letras.
Assim somos nós em poética busca da vida, deliciosa sina!
Em vidas que são (alfa+béticas) eu gamo!
E me deito nos poemas, devorando cada palavra.
Devaneio imaginativo, complexo.

E quando caminho em ruas frias elas me aquecem,
Em sentença do sentir vislumbrando minhas epifanias.
Sou literalmente isso. A busca.
A estrada, a magnitude das metáforas,
Talvez em alguma intercorrência do nada
me encontre e me restitua o tudo.

E a ti poema, confesso,
Adoro ler-te como se fosse voyer!
Eu me rendo!
Tu és meu fetiche.
Em cada não impresso eu leio um sim,
E te reescrevo dentro do corpo literal de mim.